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28/04/2016

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CRÍTICA DO GOVERNADOR DE SÃO PAULO  À  FAPESP

CRÍTICA DO GOVERNADOR DE SÃO PAULO À FAPESP

A Academia de Ciências do Estado de São Paulo vê com grande preocupação a

nota publicada em 26 de abril de 2016 pela colunista Vera Magalhães da revista

Veja, sobre a crítica do governador Alckmin à Fundação de Amparo à Pesquisa do

Estado de São Paulo (FAPESP). Apesar de uma segunda nota, publicada no dia 26,

ter desmentido o uso do termo máfia de pesquisadores e de ter havido um bate-

boca sobre o assunto durante a reunião do secretariado. O restante do que está no

artigo mostra a visão parcial e distorcida, que o Governador demonstra ter sobre a

íntima relação ciência básica e aplicada e até sobre a ciência em São Paulo, que é

motivo de orgulho para o estado e para o país, considerando que o impacto da

produção acadêmica brasileira no cenário mundial, deve-se em grande parte ao que

se produz em São Paulo, devido ao suporte financeiro da FAPESP.

A FAPESP tem sido vista como um exemplo nacional e mundial de

financiamento à ciência, tecnologia e inovação, e elogiada em diferentes âmbitos,

sendo um exemplo para todos os estados brasileiros, que copiaram o modelo e vêm

fazendo com que verba estatal seja mais direcionada a ciência local de cada estado.

O esforço da FAPESP na interação entre os setores acadêmico e produtivo,

público e privado tem sido enorme. Em particular, há programas específicos que

tratam da interação com o setor produtivo (PIPE, PITE e PAPPE) que visam financiar

diretamente iniciativas junto à indústria e/ou de formar novas indústrias em São

Paulo. Os esforços nestes programas são comparáveis, em qualidade, ao de países

como os Estados Unidos e Alemanha e não há iniciativa comparável na América

Latina.

Além destes programas mais específicos, os quatro grandes programas da

FAPESP (BIOEN, BIOTA, MUDANÇAS CLIMÁTICAS, e COMPUTAÇÃO (SCIENCE)

congregam a aplicação de milhões de reais para resolver problemas práticos reais

que são importantes não somente para São Paulo, mas para todo o Brasil e para o

mundo. O foco em energias renováveis, notadamente o etanol, congregado pelo

BIOEN, avançou o conhecimento científico sobre a cana e o etanol de maneira sem

precedentes. Em poucos anos de estímulo a ciência brasileira das energias

renováveis está pronta para ser aplicada e mudar o paradigma sobre o etanol de

segunda geração. Mesmo com a grande crise que se abateu sobre o setor

sucroalcoleiro, a FAPESP nunca deixou de fomentar a pesquisa na área, apoiando os

projetos e mantendo o foco. É deste tipo de atitude que o Brasil precisa, ou seja, de

consistência nas convicções e, criando uma identidade com base naquilo que

fazemos melhor. No caso do BIOTA, com mais de 20 anos de existência, o avanço no

conhecimento da biodiversidade paulista e brasileira, com reflexos internacionais

inquestionáveis, ajuda a nossa sociedade a entender e poder preservar o meio

ambiente. Além da preservação há também o uso sustentável da biodiversidade. Por

exemplo, as descobertas de compostos que podem se tornar novos fármacos,

cosméticos e aditivos de alimentos é enorme. Já o programa de Mudanças

Climáticas, irmão mais novo do BIOTA, se debruça sobre o que tem sido considerado

com o problema mais importante que a humanidade já enfrentou: as Mudanças

Climáticas Globais. O programa não somente vem gerando modelos climáticos, que

são a base para decidir o que fazer para evitar os efeitos extremamente graves que

os impactos das Mudanças Climáticas irão produzir, mas também os seus impactos

sobre a produção de alimentos, a produção industrial em geral, a saúde da

população, entre outros. O Programa de Computação da FAPESP, o mais novo dos

quatro, foi montado para preparar a sociedade paulista para a era do big-data, em

que temos que aprender a lidar com a imensa produção de informação advinda dos

avanços na área de computação.

A aparente distorção da visão do Governador sobre a FAPESP é maior

quando despreza o financiamento à sociologia. Este é um dos principais focos da

pesquisa no Estado de São Paulo, sendo a capital o maior grupo de pesquisadores do

Brasil na área. Estes são os pesquisadores que pensam em como melhorar as

políticas públicas, o que acontece e porque existem populações pobres e se dedicam

a encontrar soluções sobre como podemos solucionar estes problemas. Se

abandonarmos as pesquisas em Ciências Sociais, o que será da nossa população?

Na área de ciências da saúde, a FAPESP vem sim investindo em Dengue há

muitos anos. Mas é importante lembrar que a pesquisa sozinha não consegue

resolver todos os problemas. A FAPESP não tem como missão financiar fábricas que

produzem por exemplo vacinas. Estas fábricas tem que ser mantidas pelo Governo.

Se o Butantan não tem dinheiro para produzir vacinas, a culpa não é da FAPESP e

sim do planejamento do governo que não manteve os Institutos de Pesquisa do

Estado de São Paulo em funcionamento adequado. A FAPESP cumpriu sim a sua

missão em financiar a pesquisa de como fazer as vacinas.

É preciso que as informações científicas sejam incorporadas pelos políticos

da forma mais íntegra possível. É isto que faz com que a probabilidade de erro nas

decisões diminua. No caso da crise da água, por exemplo, por mais que os cientistas

(tanto da hidrologia e agricultura, quanto da sociologia) tenham tentado avisar o

governo do perigo desde a primeira crise em 2009, não houve uma resposta

baseada em ciência com a antecedência necessária, mas sim em crenças e em teorias

pessoais sem base científica, que levaram São Paulo a atingir uma situação crítica, na

qual ainda se encontra.

Mais importante ainda é falta de visão do Governador sobre o que significa a

ciência básica, aquela que aparentemente, e só aparentemente, AINDA não tem

aplicações. É preciso compreender que a ciência básica é a ciência aplicada do futuro

e o tempo que separa ambas tem encurtado com o passar dos anos. Sem

compreender os fundamentos dos fenômenos da natureza, as aplicações cegas e sem

base científica levam a tecnologias fracas e pouco competitivas. Ademais, a própria

classificação entre ciências básica e aplicada tem sido cada vez mais questionada.

A FAPESP vem trabalhando incessantemente para encurtar o caminho ente a

descoberta básica e a aplicação, principalmente, nas últimas 3 décadas. As pesquisas

aplicadas e de cunho tecnológico só surgem depois que algum pesquisador trabalha

em média 10 anos em um problema geralmente sem aplicação aparente. Aí sim

surgem as possibilidades de aplicação. E a FAPESP foi sempre sensível a isto,

mantendo a pesquisa básica (a nossa galinha dos ovos de ouro) e ao mesmo tempo

criando programas cada vez mais focados e que tentam resolver os problemas mais

importantes da sociedade contemporânea.

A ciência é um processo lento e a sociedade tem que compreender que não há

como acelerar mais do que estamos fazendo, mesmo com investimentos excelentes

que a FAPESP vem mantendo em São Paulo. Isto porque a sociedade científica

paulista se formou não somente com as verbas para a pesquisa, mas também com as

bolsas de estudo para a graduação, pós-graduação e pós-doutoramento, que formam

os profissionais em alto nível. Tudo isto leva tempo para conseguir. No caso de São

Paulo levamos décadas para chegar ao nível que estamos.

Achar que a dotação de 1% é muito para a pesquisa é uma visão muito

perigosa para um Estado que se auto denomina a locomotiva do país. De que adianta

uma locomotiva sem combustível?

A ACIESP convoca a população a defender a FAPESP não como um

patrimônio dos pesquisadores, mas como um patrimônio de todos os paulistas e

brasileiros. Sem a FAPESP o Brasil mergulhará na escuridão e na dependência da

ciência e tecnologia feitas em outros países. É isto que a nossa sociedade quer?

 

Academia de Ciências do Estado de São Paulo

Marcos Silveira Buckerigde

Presidente

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